Cap 4 - Avatar





Por Victor Meloni

Ao que o condenado considerava os excessos do cura, e das prosélitas, não lhe foi possível escrutar. Expirou a impressão, a lhe assaltar no encontro com as exageradas manifestações de persignações, e deu termo a tudo aquilo. Voltou a ter com a jovem senhorita que, resoluta, instava-o a abolir com a recente natureza, assaz abjeta, da turba ensandecida e por suas vis necessidades na urbe que queimava sob firmamento acanaveado. Titubeava, incréu no niilismo que afundava a pequenina cidade, e logo era clamado à ação por Kyra, alcunha reduzida da semente dos terrores a pervagar por lá.

A dar-se por isso, Julian inspirava a frustração exstante que lograva do método. Aquele mesmo que garantia-lhe louros por aquiescer com as regras da lógica. Lorpa! Neste momento, de troça e chiste, vermelhou-se com o desdouro da sua certeza.

- Kyra, estamos próximos?
- Sim, Julian. Mais dois quarteirões, no máximo. Esta bagunça confunde-me. A cidade está inçada pelo levante destes arruaceiros.
- E quem é a responsável?
- Mesmo que a relevância seja, agora, o menor dos nossos problemas, você, Julian, sabe muito bem quem. “...a frustração da credulidade no método...”. Julian pousa os olhos no chão varrido pela fúria da prole amaldiçoada e resigna-se.

O grupo sibilava, à porta estreita que fincava obstáculo entre Kyra e Julian. Curioso como os modos alternam-se, mesmo quando homens encontram-se contaminados por sugestões de outra natureza. Movimentos oblíquos serpenteavam a reunião esporádica, dando-lhes o sinistro necessário ao sentido de Julian. Afinou os lábios e espremeu dentes afora. Rosnou, num silvo longo e grave, entregando a missiva notória que antecede, forçosamente, encontros acalorados e grosseiros. Kyra, por instinto, novo ou velho, permitiu-se o mesmo. O primeiro condenado, com certo ar janota, saltou-lhes o ardil às ventas, mas deu com a cara, em metáfora e literalismo, no abafadiço caráter do vetusto vampiro. Este, há muito irritadiço pela corrupção de suas regras, meteu-lhe o punho nas ventas, abonançando a ênfase belicosa do ataque. O resto da bandalha azedou-se, recrudescendo o espírito belicoso, próprio dos malditos. Avançaram energicamente à uma água-suja de socos, pontapés, mordidas e fraturas. O remate do empenho furibundo foi nada menos que a matança cru dos mandriões recém nascidos para os mistérios da nova vitalidade. Ah, jovem Kyra, o hercúleo morticínio lhe causa espanto?

Julian, de imediato absorto em átomos reflexivos, pouco nota a aflição que assoma sua companhia. Amém, então, vampiro. Vá ter com ela, na sua ambigüidade, pois é sua progenitora quem os trouxe aqui, lembra-te?

- Kyra, espere. Sabe, Lúcifer, o que possui, reformulo melhor, quantos tomam depois desta porta?
- E o que importa, Julian? Se olvidaste o que se espalha aos seus pés, basta, por ocasião e necessidade, olhar para baixo! O vampiro meneia a cabeça confusa, pois a sabe incoerente. É suficiente concordar com Kyra e adeus receio!

Dentro era mesmo um pequeno vestíbulo, revirado nos poucos móveis e vergastado na atmosfera. Filha, apesar do destrato, convém amar uma mãe. Kyra, por esta consideração, investiga em minúcias toda nesga de sombra que alugou, por direito, o espaço. Pede mamãe. Grita aos soluços. A treva não enamora o sigilo com virtude, bem sabemos, conquanto vivam a jurar fidelidade. Posto isto, é conseqüência, assim, a presença da mãe, denunciada por choro e riso, num canto qualquer, negligenciado pela perscrutação afetada de Kyra.

- Mãe! Venha! Deixa-me socorrê-la! Pelos céus, e se esqueço os infernos é por causa da sua deferência ao perigo que corre. Mãe! Naquele cantinho, revirado ao borbotão, um bulício é única resposta, e dê-se por satisfeita, vampira.

O vampiro, por sua vez, e na inspiração natural, cediça apenas aos sempiternos mais remotos, logo nota o rogo injetado de dolo no semblante casmurro daquela que estão a procurar.

Bolacha-quebrada todos lá fora! Esta, aí no canto, é problema cru!

O vampiro, antes brônzeo, hesita. Vê o desespero teimoso nos olhos que rutilam excitados naquele escurinho. Junto ao lengalenga da criatura, conclui dois mais dois e finca o pé. Já sabe o que arbitrou e faz como aqueles senhores que nada mais querem com compostura ou outras educações. De supetão interrompe a inflamada questão que arde no coração da menina, própria do parentesco preocupado daquelas situações.

- Julian, estás louco?
- Aquela é sua mãe?
- Sim!
- Está possuída. O vampiro entrega a sentença com a voz embargada e grave.
- O que me importa! Então, destarte, seremos para sempre! Kyra, nesta afirmação, aboli toda circunstância da categoria que os afeta. A ela, ao vampiro e a sua mãe. Nem um tostão reflexivo sobre.
- Não. Tu não me entendeste. Não há adjutório possível. Matá-la-emos agora. Kyra. Jovem vampira, jovem ciência. Sem estudar, pois o tempo, a ti, também é moço, faltar-lhe-á o entendimento imediato. Pois bem, mais a frente, no curso, colherá o saber necessário.
- O que estás a falar, Julian? Deduzo insanidade? Ou seu discurso tem o lastro douto dos anos que não vivi? É minha mãe! Salvá-la-emos, isso sim! Deixe, caro leitor, a certeza lhe acompanhar; Kyra deu mesmo uma ordem!

Sabes aquela velocidade ímpar a manifestar-se naqueles que costumamos, por preguiça e comodidade, alcunharmos vampiros? A réplica de Julian, pois bem, ao imperativo categórico da noviça. Embolaram-se, o vampiro e a energúmena senhora, em luta cruenta e copiosa. Kyra a tudo tremia. Julgo-lhe com o espírito em lassidão solene, sem forças para reação alguma. E estava certo, preciso concluir. A assuada entre os dois azedava a cada soco e pontapé, a cada furo e rasgão, uma vez que sabiam a morte o desenlace da prebenda. E não desapontou-nos o vetusto. Avassala, fazendo o favor de separar, com prestes golpes, cabeça e tronco. Injuriando ferinamente a vampira que foi ter com o morto-vivo.

Olhos esbugalhados, a marejar-se, assistem a tudo. Malogrou na tentativa; salvar-lhe a mãe. Tenta motejar da pintura. Falha outra vez e chora. Chora o protocolo das perdas sentimentais. Kyra amanhece pensamentos vindouros. Mas logo desanima e cai. Julian aquiesce o drama. Os anos a pesarem-lhe nas costas espadaúdas corrigem qualquer julgamento leviano.

- Farás o mesmo com a cáfila ensandecida? ; a debutante coteja o vampiro, num tom lamurioso, incluso aí para prestar mais drama e indignação.
- São muitos; redargui o chibante umbrífero. O tom encanece-lhe, como escapando do impossível, ainda mais a pele. O que isto quer dizer, caros, só podemos especular.
- Já volto à realidade, e protesto-me a sair deste antro; insta Kyra.
- Pois bem, penso o mesmo. Vamo-nos daqui.

A depravação avulta sobranceira nas ruelas e avenidas. À onde o curso remete, o endereço parece corrompido. Os dois a estranhar-se aqui e ali, sovando, antes de levar aos túmulos, os vagabundos que insuflavam sanguissedentos, o angu-de-caroço que estava virando norma naquele cafundó. Uns quantos conseguem dar fim. Mas, sabe Julian, que o tema está perdido. Não há hora extra a dar conta da besteira toda. A carranca endurece, e amaldiçoa o dia em que botou os pés neste caxa-prego.

- Julian, lembra-te do multívago? Falo daquele, causa da barafunda? Em respeito à verdade, não ele, antes eu...
- Kyra, o néscio, pelo que nos é permitido saber, haver-se-á com qualquer infeliz nesta cidade, ou onde seu horizonte lhe esperar. Com mais, ou menos, sangue nas ventas, ele, agora, não é gravidade maior que o resto da patuléia a chuchar os pobres, poucos, que ainda sobram nesta urbe. Ademais...

Os dois danados são pegos na coincidência. A igrejinha, diminutivo emprestado à tamanho e aconchego, sorri. Daqueles oblíquos, que podem, de fato e direito, troçar-nos o espírito. E conseguem. Julian quer saber; por que não gritam mais? As carolas e o clérigo? Está, aí, a piada que enviesa da arquitetura santa? Entro sem reticência, afirma o vampiro. Kyra, logo atrás. O primeiro enche-se de zina. A segunda, de espanto. O fuzuê de gente sepultada, umas sobre as outras, lançadas ao pé do velhaco, dá forma, e substancia, mister acrescentar, à mofa que escapa-lhe os lábios. E nos olhos? Conquanto estes recebam os adjetivos que nos asseguram uma alma, podem também concluir-nos o contrário. Olha ali! Vês! É pedra! Estatua! Nada há, a não ser algidez e indiferença! Próprio dos quefazeres impassíveis! Julian rosna, e arreganha os beiços; é mesmo a etiqueta dos malditos. Mordedura pronta! Kyra, logo atrás.

- Julian, é o pulha! Veja o arrivismo!
- kyra, deixa-nos! Constrange unha - as quer por garras? - nas carnes das mãos. Quando fura e sangra, viceja vermelho. Basta para os dois. Atiram-se. Kyra já se foi. Fechou a porta. E escuta. Deus do céu! 

2 Comentários:

Victor Meloni disse...

Espero ter feito sombra, ao menos, à empresa vampiresca de Juilan e Kyra! Obrigado, irmão, pela oportunidade!

Salamandra Malandra disse...

Se fosse a legenda de uma fotografia, eu estaria agora diante de toda plenutide da imagem. Salvo a recorrência constante ao dicionário para entender alguns termos, a primazia da história prende a atenção e clama pela imaginação a cada curva.
apavoro geral mano.

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